A Salvação Veio do Espaço (Parte 3)

14.03.2017

 

Andamos aproximadamente 473 metros até pararmos na frente da fachada de um prédio intacto. — UM PRÉDIO INTACTO — Olhei para o meu amigo bizarro, fitei os seus olhos com tamanha curiosidade que ele não conseguiu se conter e abriu uma sonora gargalhada.
— Você pode me chamar de Estudante. — disse o ser de focinho de gambá. 
— Meu transporte está no terraço do prédio, escolhi esse edifício porque ele possui 3 andares, e são três as explicações que você terá. Agora, me acompanhe até o salão do térreo.
Aquele salão me pareceu muito estranho, eu nunca havia entrado naquele lugar, não tinha certeza se aquele prédio ao menos existia. As paredes eram todas revestidas com espelhos de tonalidade azul, o chão era recoberto com gigantescas peças de mármore. Não era possível ver nenhum reflexo no piso extremamente liso, mas era nítida as imagens de seres desesperados tentando romper as pedras de mármore para conseguir a liberdade. Parecia que algo estava vindo para puxá-los de volta ao fundo da imensidão escura.
— Percebo que está encantado com as pedras de mármore. Você poderia estar aí também, mas eu estudei muito a sua conduta e, agora, lhe dou a honra de observar todas as pessoas de quem você se diferiu tanto, elas não sabem, mas estão felizes em suas vidas perfeitas, isso tudo nada mais é do que a materialização dos desejos mais profundos, o desejo de se desprender para estar onde você está agora. Sim, meu amigo, elas lhe observam agora, mas não o enxergam, entende?
Eu não consegui processar muita coisa que ele disse.
— Tem certeza de que deseja continuar? 
— Tenho!
— Certo! A escadaria fica logo na sua frente.
Quando deixei para trás o último degrau da escadaria, meus olhos foram cegados com algo que parecia ser uma venda invisível.
— Bem-vindo à primeira explicação.
O ABRIR DOS OLHOS
Lá estava eu em um situação de desespero contínuo, não tive a coragem de dar um passo de onde eu estava, tudo o que eu poderia fazer era ouvir o que o Estudante tinha a me dizer.
— Os seres humanos são incríveis, eles nascem para um bolha de destinos traçados, recebem um manual de como se portar, vestir, cumprimentar quem não gostam, elogiar quem elogia e não falar o que pensa para prevenir o ouvido de ouvir o que não quer. Eles cortam a cauda dos cães com a justificativa de prevenir ferimentos em uma caçada. Eles aprendem que, para ser bem-sucedido, precisam encontrar um colchão para repousar os cérebros acostumados a apanhar e dormir. O “engolir sapos” se tornou tão comum, que seus estômagos se estrebucham querendo desesperadamente saltar para fora do corpo algoz que habitam. Você se deu mal, não é? Nada disso o atraiu.
— Acho que você está certo.
— Eu sei! — Estudante assentiu com a cabeça e continuou.
— Olhe para você. Nunca obteve a segurança de um trabalho fixo, jamais estabeleceu residência, sempre preferiu devanear em suas caminhadas por aí ao invés de procurar ajuda na religião e nas terapias de grupo para tentar se desafogar da água negra que o espelho da culpa cuspiu na cara dos que insistem em se desculpar por estarem fazendo aquilo que não querem fazer e, mesmo sabendo do erro que cometem, continuam lambendo o rabo um do outro, para que o outro, também com medo, tenha o alívio de saber que o próximo vai limpar a culpa deixada pelo predecessor. Se todo mundo faz o errado, ele vira certo. O general mandou matar. Mate! Você estará do lado da lei que pode te prender por não apertar o gatilho também. Eu o escolhi porque não vi nada dessa culpa em você.
— Mas como pôde estar me observando esse tempo todo? Que vida mais monótona a de ficar cuidando da vida de um sem graça como eu...
— Cale-se! 
— Eu observei você sendo lobo em pele de lobo, nunca fugiu da natureza de ser um humano mal-humorado, um carrancudo atrapalhado. Sua foto de identidade é da época que você era criança, seu passaporte nunca veio e nunca virá. Percebi que são poucas as pessoas que se aproximam de você. Fronteiras e divisas são palavras que só fazem sentido se usadas para te manter distante dos lambedores de cu alheio. Você saiu da orbita, não, melhor, você ficou na orbita, por isso te achei. Para a maioria esmagadora dos seus semelhantes, você é burro, muito burro, mas muito burro mesmo, sabe? Eles veem você dando murros em ponta de faca. Uma pessoa tão estúpida, tão cavalgadura, tão lerdaça, não pode ser tão burra. Você abriu os olhos e te chamaram de cego.
A venda ilusória se desprendeu dos meus olhos e a visão que tive foi a mais aterrorizante da minha vida. 
Havia várias mesas de vidro com pernas de prata, sobre elas centenas de taças de cristal cheias de champanhe. Cabeças de porcos, leões, pumas, tubarões, sapos, unicórnios, hienas... todas servidas em bandejas de ouro. Nos cantos da sala, crocodilos empalhados se deleitavam bebendo drinks de cereja com sombrinhas coloridas nas bordas. Todos eles com óculos escuros e deitados em confortáveis cadeiras de praia. O sorriso dos crocodilos era ostensivo. Ao lado das paredes, acorrentados, grifos se debatiam violentamente para conseguir a liberdade e voar para longe daquele pesadelo. Dragões-de-komodo circulando livremente e morrendo ao morder as pernas dos estranhos seres bípedes que ali se faziam presentes. Os bípedes nada mais eram do que humanos transformados em estáticos manequins. Parecia que as almas estavam tentando fugir pelos olhos daqueles corpos de resina plástica. Os olhos estavam sangrando com as insistentes estacadas que sofreram daquelas mãos carregadas de diamantes. Era um absurdo o tamanho do desespero que aquelas expressões mostravam.
Segui o Estudante até a escadaria e deixei para trás aquele piso de gelo que segurava a festa dos que se arrependeram por nunca terem conseguido abrir os olhos a tempo. Claro, não antes de desvencilhar os grifos das correntes. Acabou os ovos de ouro.
O TIRO QUE NÃO ENTROU PELA CABEÇA
Chegamos ao segundo andar daquele prédio que mais parecia um produto da minha mente sofrendo de abstinência alcoólica. Eu só queria ter chegado no bar mais próximo. 
Estudante não demonstrava nenhuma reação, era praticamente uma tábua. 
— Você entendeu o que acabou de presenciar, humano?
— Entendi que você é o butiá dentro da minha garrafa de cachaça, eu devo estar desmaiado na minha cama depois de ter virado o litro na goela em busca da fruta que aromatizou o meu licor. O prêmio. 
— Humano, se toca, você se livra da sua própria bosta usando água potável. 
— Você me pegou, pata de porco.
O ambiente me fez sentir estar em um labirinto de curral. Eu sou um gado? Ah, não, eu sou um burro. Droga!
— Por que você acha que está aqui hoje? — perguntou o Estudante. 
— Porque houve uma explosão.
— Não! Você está aqui porque bebeu demais e errou o tiro.
Como ele poderia saber disso? Eu estava trancado no meu quarto quando isso aconteceu. 
Era um domingo à tarde quando bebi 2 garrafas de vodca e decidi que era a hora de ir embora. Segurei o 38 com as duas mãos e o apontei para a minha cara enquanto fazia um levantamento sobre a minha vida. Tudo havia dado errado fazendo a coisa certa. Quando eu era criança, ficava sentado na calçada da escola depois de não querer participar das brincadeiras hostis que meus colegas faziam com os meninos que usavam óculos, com os garotos e garotas que não estavam em um peso ideal para os padrões dos imbecis, com os que estudavam muito e com os considerados retardados. Eu era um retardado com poderes teatrais, conseguia disfarçar bem, por isso não pegavam no meu pé. Mesmo assim, eu ficava sentado na calçada e recebia lançamentos de brita na cara. Eu queria matá-los, mas não queria ser preso. 
Quando adolescente, me escorei em uma das dezenas viaturas policias que estavam sendo ostentadas em uma grande feira agrícola da minha cidade. Tomei uma joelhada no estômago e três socos na cara. Meu sangue gotejou sobre o solo sagrado de um evento que desviou o dinheiro que estava direcionado para a construção de uma nova biblioteca municipal. Os shows dos artistas contratados foram um sucesso, todo mundo estava feliz e se sentindo importante por fazer parte daquele acontecimento de pessoas de bem. Claro que eu não deveria estar lá, afinal, eu só queria ter algo engrandecedor para fazer no dia a dia da cidade. Eu me senti uma pessoa de mal. Claro que eu era do mal.
Adulto, eu taquei fogo em uma casinha de papai Noel.
Sim, ir embora era a coisa certa a ser feita. Fechei os meus olhos e apertei o gatilho.
Ouvi um barulho ensurdecedor e, logo após, um estalo de vidro quebrando veio me contar que falhei de novo na vida. Acertei o quadro do Kurt Cobain que estava na parede de trás. Ouvi ele dizer: “Porra, man, eu me dou um tiro na cabeça e agora todo mundo quer se matar igual (!?) Não quero saber de modinha com as minhas atitudes, crie a sua própria morte”. Então eu decidi viver para criar.
— No decorrer da sua vida, nada foi do jeito que você queria, mas você percebeu que estava sendo engordado com mentiras para chegar a um final sangrento e cansativo, que o faria implorar por uma injeção letal. Você tentou escapar desse fim, você pulou para fora da prisão invisível e levou consigo a soga amarrada no pescoço. Eu sei que foi dolorido ao extremo, mas agora não há mais a dor da flor da agonia, não existem mais açoites, a sua verdadeira existência começa agora.
Subimos a escadaria para a explicação final, mas, não antes de olhar para trás e ver os javalis segurando os peixes chupando nas tetas dos humanos e empurrando-os para o bico de uma agulha gigante que esperava-os com uma dose letal de tinta de carimbo. — Eles cumpriram a missão e ganharam a passagem por meritocracia. — disse a seringa.
ANTÔNIO, O CABEÇUDO
Antônio, o cabeçudo, estava sentado em uma cadeira no meio da sala, ele não movia um músculo. Ele passou toda a vida terrena quieto. 
— Humano, este é um semelhante seu, ele sofre de uma patologia chamada de inconformismo, ele andava pelas ruas da Itália com uma pedra de gelo na boca. Antônio foi um médico que fez uma operação muito peculiar na sua própria cabeça, ele sentia um inchaço na e resolveu construir uma varanda para o cérebro. Ele deixou a Itália para meditar comendo terra e gelo nos montes da Noruega. Foi lá que eu o encontrei, foi lá que eu causei uma avalanche e o fiz pensar que morte havia chegado com o vômito da sua varanda. Claro que a história dele não se resume a isso, muito pelo contrário, ele ainda me intriga e me desafia até hoje. Tem um segredo muito grande a ser revelado sobre ele, mas isso será dito em outro momento. 
— Humano, pense em alguma coisa que faça Antônio se levantar da cadeira e eu a materializarei.
— Bem, percebi que ele abriu a varanda no crânio com duas linhas verticais e uma forma de meia-lua sobre elas. Eu quero que você materialize uma forma geométrica igual, mas um pouco menor.
Estudante assim a fez. Peguei aquela forma geométrica e fiz movimentos de vai e vem no crânio do Antônio. Sim, eu manejei um caralho geométrico contra a cabeça dele.
Antônio, é claro, me deu um soco no estômago e se levantou mais rápido que um bote de cobra naja.
— Seu pedaço de carne humana, você tentou comer a minha cabeça? Estudante, vamos dar o fora daqui logo, esse planeta tentou gozar na minha varanda.
— Parabéns, humano, você conseguiu, finalmente entendeu que foder uma cabeça é mais excitante do que estourá-la com uma bala de revólver.
Subimos no terraço do prédio para dar o fora o quanto antes. Embarcamos na espaçonave e Estudante apertou na ignição.
Na medida em que ganhávamos altura, meus olhos não se despregavam da janela. A cidade começou a se reconstruir rapidamente como um rebobinar de um VHS. Formou-se uma redoma gigantesca entre “nós e eles”. Foi aí que eu percebi que sempre estive dentro da espaçonave, pois o piso de mármore do primeiro andar estava recobrindo a redoma. 
Antônio se sentou e não abriu o bico. Estudante me observou olhando para o contentamento.
— Humano, eu sou eterno, já vi tantas coisas, mas sei da grandiosidade de vocês do planeta Terra, certa vez, no século XIX, conheci um semelhante seu que me disse que sem música a vida seria um erro.
Estudante apertou o botão e Heart Of Gold, do Neil Young, começou a tomar conta dos nossos ouvidos. Seguimos em direção a lugar nenhum, pelo menos eu não importava para onde.
— Humano, tem uma geladeira cheia de cervejas te esperando aí do lado do painel de controle.

 

Fim.


* Desenho/Ilustração por Murilo Salini. Murilo, você foi imprescindível para com esse conto retardado. Muito Obrigado.
* Texto sem correção ortográfica adequada.
* A falta do uso da virgula em algumas sequências de palavras foi proposital, mas sem alterar o sentido dos meus escritos imbecis. Gosto do modo de como os escritores Beat prolongam as frases, sem frescuras e sem preocupação com as formalidades, que para a maioria é inflexível.
* Obrigado a vocês que chegaram até aqui, vocês fazem parte de um seleto grupo de 3 ou 4 que tiveram a coragem e a consideração para ler os tongos escritos deu um desvairado. Meus sinceros agradecimentos.
* Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

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