A Salvação veio do Espaço (Parte 1)

01.03.2017

 

 

Acordei na tarde vermelha de uma terça-feira com o apito da fábrica ressoando nos meus tímpanos como se fosse o vai e vem de uma britadeira com um punhal banhado à pimenta Carolina Reaper adaptado na ponta. Eu perdi a hora, eu nunca mais voltaria àquela fábrica onde os meus sonhos foram empedrados e mantidos entranhados nas minhas tripas. Eu nunca mais me permitiria ser um frango depenado na esteira da morte. 
Meu corpo estava tão cansado, que resolvi não ligar a TV, o controle remoto já não fazia parte do meu quarto imundo há muito tempo. Depois de alguns devaneios sobre como eu seria se fosse um Aborígene australiano durante a invasão britânica por volta de 1788 e de como eu entraria em acordo com os diabos-da-tasmânia para que eles mordessem os traseiros brancos dos ingleses, eu finalmente levantei e fui até a sacada com uma cerveja na mão — Well, i woke up this morning, i got myself a beer —. Lá do alto, eu fitei, como habitualmente, os versos (aqueles que aparecem no compacto “Na Hora do Almoço” de 1971) do Belchior, pichados em um muro semicoberto com trepadeiras. Os malditos versos:

 

“ Que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
Deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois senão chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida. ”

 

Eu já estava na rua, quando me deparei com dois jovens discutindo sobre qual era a melhor direção a ser tomada pelo país, se era à direita ou a esquerda, se era o vermelho ou se era o azul. Eu pensei em mandar os dois para dar com o nariz contra a calçada, assim o vermelho do sangue entraria em contraste com o azul desbotado das lajotas. Mas eu passei reto, afinal, eu não me importava mais, eu era um desempregado feliz, nada mais me interessava, eu só queria entrar no próximo bar e encher a cara. Antes de dobrar a esquina, parei em frente ao “muro das frases malditas”, joguei alguns trocados para os mendigos beberrões que ali estavam sentados e enraizados na calçada, mas não antes de largar a velha frase semanal: “é para a cachaça, não é mesmo? Não me venham mentir que é para comprar pão e banana, que eu não vou acreditar. Eu sou o mercador da morte do reino do absinto, não vou financiá-los para que fiquem com a barba cheia de migalhas de pão e com os beiços babando banana melada e pedindo moedas para as doces senhoritas que aqui passam”. Por um instante, eu pensei que seria melhor ficar ali com eles.
Andava na direção do bar mais próximo, quando percebi um tumulto em frente a um posto de combustível do outro lado da rua. Me aproximei.
— Sua cadela, como pôde fazer isso comigo, logo eu!
Tratava-se de um homem alto, bem vestido, com uma loção pós-barba que exalava um cheiro de vela queimada. Percebi que o sujeito era o pastor que, na semana anterior, apareceu nos jornais, acusado de ter roubado espigas de milho do quintal do vizinho. Lembrei que o caso me fez rir sozinho quando vi pela internet: “Pastor local foi surpreendido roubando espigas de milho do quintal de um morador aposentado. O aposentado disse não estar arrependido por ter acertado um tiro de sal grosso na nádega esquerda do pastor, e não sente medo pelas ameaças sofridas pelos fiéis que se sentiram ofendidos pelo aposentado ter postado em seu perfil no facebook a foto do traseiro vermelho do pastor enquanto ela pulava o muro de volta para sua propriedade. O pastor disse que falta Deus no coração do aposentado, e, o convidou para participar do “culto da partilha”. O aposentado não aceitou”. 
A mulher do pastor estava vestida com uma camisola branca, havia uma espécie tiara com orelhas da mulher gato em sua cabeça. Ela ainda estava com um cinturão que segurava um enorme pênis postiço na parte frontal do corpo. Ao lado, um homem baixo e gordo, com os lábios borrados de batom e vestido somente com uma cueca de couro, caia em prantos de tanta vergonha. O pastor pegou os dois em um muquifo perto do posto de gasolina, mas eles conseguiram fugir correndo. Eles só pararam porque o pastor estava em bom estado físico e apontava um revolver na direção deles.
— Como pôde? 
— Logo com ele?
— Logo com esse sem vergonha que abriu aquela igreja concorrente! — concluiu o pastor.
Saí de perto no momento em que os três disparos ecoaram no quarteirão. O mundo havia acabado para os três. 
Ainda pensando na tamanha bizarrice que acabara de ver, continuei indo em direção ao bar. Minhas pernas estavam latejando, minha cabeça estava processando o acontecimento de morte, o coração palpitava como um motor de motosserra, eu queria morrer. De verdade, eu queria morrer. Eu ia morrer. Isso é sério.
— Olhem para o céu! — disse uma mulher antes de se agachar e rezar.
Eu olhei para cima, vi uma bola de fogo de proporções estratosféricas se aproximando no horizonte e, de repente, tudo ficou em silêncio. Só deu para ouvir alguém dizendo: “ asteroides, meteoros... “.
Só tive tempo de pensar em como eu estava feliz com aquele momento. Finalmente! Finalmente! Lembrei do tempo em que eu era uma criança, pensei em minha mãe. Ela penteava o meu cabelo e me acompanhava até a escola, eu era um bom menino. Todos diziam que eu teria um bom futuro, que eu era inteligente, que eu seria doutor. Também recordo de uma garota (a mais linda de todas entre todas e tudo). Ela me disse que eu não ia servir para ser doutor, pois eu costumava alongar demais as explicações para uma resposta simples, e que os pacientes iriam morrer antes que eu terminasse de ler e explicar o diagnóstico. Lembrei do meu cachorro, meu único cachorro. Alguém o envenenou e eu tive o desprazer de acompanhar o fechar dos olhos do meu amigo.
Senti um calor insuportável, meus olhos não enxergavam nada além de uma luz branca que agulhava meus olhos feito uma antiga máquina de costura pilotada pelo Jimi Hendrix após uma viagem de ácido que o fez confundir o pedal da máquina com sua pedaleira Wah Wah.
Abri os meus braços e sorri feliz. Foi um estrondo enorme. Senti o meu corpo sendo esmagado por todos os destroços fedorentos dos prédios de escritórios corporativos. Eu apaguei.

 

Continua...

 

* Desenho/Ilustração por Murilo Salini
* Texto sem correção ortográfica adequada.
* Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

 

 

 

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