Apenas uma crônica

19.06.2017

 

 

A energia elétrica da minha casa foi cortada ontem à noite. Tive que terminar de ler o livro de química à luz de velas. Hoje acordei com um leve desconforto nos olhos, mas isso não me impediu de pegar, sob uma forte chuva, o ônibus das 5h30. Meu material escolar estava dentro de uma mochila de lona fina rasgada. Uma grande sacola plástica transparente embrulhava e protegia da chuva o material que foi comprado graças aos trocados que ganhei trabalhando como olheiro de estacionamento. Minha mão direita congelou quando tive que me apoiar no ferro que descia do teto até o piso escorregadio do latão motorizado e cheio de goteiras que me transportava. Eu estava bem (precisava), eu tinha o dever de agradecer a oportunidade, eu estava indo para a escola.

Depois de descer do segundo ônibus, me deparar com pessoal que me oferece diariamente um emprego de traficante aprendiz (eles dizem que eu posso ajudar os meus irmãos com esse dinheiro), passar pelo portão quebrado e ouvir os meus colegas rindo do meu par de chinelo remendado com arame, eu finalmente entrei na sala de aula.

Tive uma manhã de estudos relativamente tranquila, afinal, eu jantei ontem à noite um bonito e seco pastel de anteontem (o pessoal da padaria são meus camaradas). O caminho de volta à minha casa eu fiz a pé, foi pouco mais de 2 horas de caminhada. No percurso, me deparei com crianças apanhando de seguranças de lojas de grife (é feio para a loja ter um bando de negrinhos na frente das vitrines), ouvi tiros passando sobre a minha cabeça, tive que fugir de 2 guardas de transito, porque eles me confundiram com um menino que acabara de levar o celular de um motorista que estava parado no sinal vermelho (coitado dos guardas, eles não tem culpa da gente ser tão parecido), passei em alguns estacionamento pra ver se descolava algum trabalho, furtei um tênis velho que estava dando sopa em uma escadaria (mentira, isso só passou pela minha cabeça, eu não seria capaz de cometer tal crime hediondo só porque nasci em um lar desfeito, sem água potável, sem saneamento, sem nenhum conforto que me proporcionasse ter um livro na estante e não no lugar do papel higiênico, sem cama pra dormir, com visão do caos na minha janela), entrei no meu bairro e saí pela minha casa.

Eu sabia que só dependia de mim. Queria entender o porquê da minha vida ser tão abençoada assim.

O meu dia foi ótimo! Eu comi ontem à noite e não fui assassinado ou detido hoje. Agora me coloco a estudar.

Estudei bastante antes de escrever esta conclusão que me veio em mente agora: eu preciso ser “alguém na vida”, não serei nada se não estudar bastante e me manter na linha, sem reclamar de nada (eu não sou bobo, é óbvio que percebo as coisas acontecendo ao meu redor). Mas, recentemente, li nas mensagens que as pessoas postam nas discussões e nas próprias linhas do tempo no Facebook, que qualquer tipo de delito só é praticado por quem é bandido, que, quem não gosta de polícia é criminoso (ah, como eu queria que todos sofressem ataques arbitrários semelhantes a que ALGUNS deles fazem comigo e com o “meu povo”), que pessoas como eu devem se sobressair perante às dificuldades... eu penso muito nisso agora.

Serei eu o exemplo que eles vão usar para atacar os outros novecentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e nove que não conseguiram “subir na vida honestamente”? Serei um herege ou um herói? O fato é que me sinto contente e culpado com a minha capacidade intelectual ser um pouco superior aos demais amigos daqui do bairro. Eles conseguirão viver sem comida e sem perspectiva? Tenho certeza que os meus amigos deficientes físicos vão conseguir ganhar uns trocados trabalhando nos estacionamentos e ainda assim ir ao colégio? Como o meu vizinho de treze anos vai pensar em sair de casa se o pai dele vai tentar estuprar as irmãs? De que maneira a minha prima surda e muda vai enfrentar o trajeto até o colégio se nem pai e mãe ela tem? Quem vai ajudar? Quem vai ousar dizer que ela não se esforçou? Quem vai colocar ela no mesmo balaio de uma infratora? Com certeza ambos são vadias e merecem morrer.

Eles dizem que sou o único que presta entre os “daquela gente”. Eles dizem que faço a mesma coisa que os filhos do pessoal da zona sul faz: estudo bastante para ser “alguém na vida”.

 

Crônica: Alan Cassol

Desenho: Murilo Salini

 

 

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